
O relógio do nepalês Aman Budhathoki, 28 anos, marcava 9h12 quando ele avistou, do helicóptero que pilotava, algo parecido com poeira subindo do leito do Rio Bhote Koshi. A tarefa do capitão era buscar um grupo de indianos e nepaleses em Timure, na região da Cordilheira do Himalaia, na fronteira entre Nepal e China. A cinco minutos do local do pouso, a imagem diante de seus olhos parecia surreal. "Vimos ondas de cinco ou seis metros. Era uma água escura, carregada de destroços, descendo em disparada e se misturando com a água do rio", relatou ao Correio.
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Aman tentou contato com a torre de controle de Katmandu, capital do Nepal, mas não havia sinal de rádio. "Sobrevoamos os vilarejos e vimos árvores e veículos serem arrastados pelas correntezas." A três quilômetros dali, no Porto Gyirong, passagem fronteiriça entre o Nepal e a Região Autônoma do Tibete, na China, câmeras de segurança flagraram o horror. Uma massa gigantesca de lama chegou a toda velocidade, enquanto as pessoas corriam em busca de alguma proteção. A inundação carregou ônibus como se fossem brinquedos e engoliu tudo pela frente.
Até o fechamento desta edição, 270 corpos tinham sido resgatados, e os socorristas buscavam centenas de desaparecidos — entre eles, pelo menos 341 turistas de 28 países, segundo uma autoridade do Nepal. Cem indianos, 54 americanos, 53 ucranianos e 33 britânicos podem ter sido soterrados pela lama. Muitos peregrinos hindus estariam na região. "A China está a 15 minutos de carro da fronteira em Rasuwa, um dos locais afetados. Uma peregrinação até um local sagrado em território chinês, chamado de Kailash Parvat, usa essa rota. Por isso, ela estava repleta de turistas indianos", explicou o piloto Aman Budhathoki.
A ruptura de uma geleira é a causa mais provável do deslizamento e das inundações. O desprendimento de um bloco de gelo de 600m de largura provocou um tremor equivalente a um terremoto de magnitude 5.2 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9). Vilarejos foram devastados e cobertos pela lama. "Vi como as águas levaram pela frente oito ou nove caminhões, além de casas e pessoas", contou à agência France-Presse Suman Chalise, professor do vilarejo nepalês de Nukawot. "Fui testemunha de uma devastação de magnitude que nunca vi igual."
Durante toda a noite, 11 equipes de socorristas trabalharam na remoção de corpos e na busca por sobreviventes. O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, apelou por união e conclamou o povo a ter "paciência". "Quero assegurar-lhes que não estão sozinhos nestes momentos difíceis: o Estado está com vocês com todos os seus meios e recursos", afirmou Shah, por meio de nota publicada nas redes sociais. Uma chuva persistente caiu na região, dificultando os trabalhos de resgate. A comunidade internacional colocou-se à disposição para ajudar os nepaleses e prestou solidariedade pela catástrofe.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro afirma que "o governo tomou conhecimento, com consternação, dos trágicos deslizamentos de terra e inundações no Nepal e na Região Administrativa Autônoma do Tibete, na China". Segundo a nota, o Brasil expressa "profundo pesar e solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Nepal e da China". Até a noite de ontem, não havia registro de brasileiros entre as vítimas. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que os EUA estão prontos para enviar ajuda humanitária. O secretário-geral da ONU, António Guterres, prestou condolências e expressou solidariedade aos afetados.
Simon Cook, geocientista especialista em glaciologia e em geomorfologia da Universidade de Dundee (Escócia), tem uma explicação científica para a tragédia, depois de realizar uma análise de imagens de satélite de antes e de depois da enchente. "Está claro que parte de uma geleira se desprendeu a pouco mais de 5 mil metros de altitude e caiu a até 3.700m. Foi uma queda livre de 1.300m. O gelo teria sido pulverizado e transformado em água, e foi isso que pensamos ter causado a enchente", explicou ao Correio, por e-mail. "Com base nas fotos de satélite, parece que havia neve em algumas das geleiras nessa altitude ainda ontem (terça-feira, 25/8), mas hoje (26/8) ela desapareceu. É possível que tenha ocorrido um evento de derretimento que permitiu a entrada de água na geleira por meio de fendas. A água, então, chega à base da geleira, tornando-a mais escorregadia e aumentando a probabilidade de de deslizamentos", acrescentou Cook.
Em nota, o Icimod — agência de gestão de desastres do Nepal — corroborou a tese de Cook. "Uma avaliação preliminar baseada em vídeos e em dados das áreas afetadas sugere que um grande volume de gelo e rochas possa ter entrado no Lende Khola, afluente do Rio Bhote Koshi. Observações hidrológicas indicam a velocidade e a magnitude excepcionais da onda. Os níveis de água no Rio Bhote Koshi aumentaram nove metros em 30 minutos", afirma.
EU ACHO...
"Sistemas de alerta precoce de avalanches são possíveis, mas não acho que houvesse um em funcionamento neste caso. Eles exigem uma rede de instrumentos para monitorar o local, tais como câmeras e sismômetros capazes de detectar os primeiros sinais de perigo. Nesse caso, não creio que os primeiros vilarejos e o posto de fronteira entre o Nepal e a China teriam sido salvos, pois estavam muito próximos do local da avalanche."
SIMON COOK, geocientista especialista em glaciologia e em geomorfologia da Universidade de Dundee (Escócia)
"Nunca testemunhei tamanha fúria da natureza. A força da enchente foi algo incomparável a qualquer coisa que eu tenha visto. A situação por aqui é crítica. Eu e meus colegas levamos em nossos helicópteros médicos, socorristas, comida e suprimentos médicos até as áreas afetadas. Ainda há muitos resgates por fazer."
AMAN BUDHATHOKI, piloto de helicóptero nepalês que sobrevoou a parede de lama

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