
A bola jogada por Vinicius Junior com a Seleção Brasileira não acompanha o nível apresentado no Real Madrid. Diante da ausência de Neymar há mais de dois anos, o protagonismo recaiu sobre o jogador eleito pela Fifa o melhor do mundo em 2024, mas ainda não deu "match". O encaixe em campo está distante e pode ser explicado muito mais por quesitos coletivos do que individuais.
A principal justificativa para Vinicius Junior não reproduzir com a Seleção aquilo a que se acostumou no Real Madrid é o ambiente. Com a camisa dos Galácticos, o atacante de 25 anos é constantemente abastecido por Valverde, Tchouameni, Camavinga, Mbappé e companhia de diferentes maneiras, com passes em profundidade, movimentações coordenadas e capazes de deixá-lo em vantagem ou de surpreender marcadores.
No Brasil, é mais vítima do que culpado. A carência criativa e a falta de conexão entre os setores reduzem significativamente o impacto do astro. Movimentos ensaiados entre os quatro atacantes, como Ancelotti prefere no esquema 4-2-4, também dificultam o trabalho de um jogador que se aproveita das ações sincronizadas para infiltrar. Resultado: a marcação adversária é facilitada e limita as opções de Vini, praticamente obrigado a resolver jogadas em desvantagem, como foi na derrota por 2 x 1 contra a França e pode ser diante da Croácia, na terça-feira (31/3), em Orlando.
A função exercida por Vinicius em campo também gera problema. É possível percebê-lo atuando como falso 9 a pedido do treinador. O posicionamento o afasta do habitat no qual costuma ser decisivo: longe da ponta esquerda, perde profundidade, deixa de atacar o espaço e precisa de jogadas nas costas dos defensores adversários. Essa missão costuma exigir maior capacidade de retenção da bola e um companheiro. Matheus Cunha não tem sido o par perfeito.
Entretanto, a leitura não é unânime. Ancelotti nega descompasso entre o rendimento do atacante na Seleção e no clube. "Não falta nada (para ser o mesmo do Real). O Vini é sempre perigoso, não vejo diferença. Um atacante nem sempre pode marcar gols. O trabalho está bem feito", analisou o dono da prancheta após a derrota para a França.
Os números jogam contra Vinicius Junior na Seleção. Em 46 partidas com a Amarelinha, soma oito gols e sete assistências. Como melhor do mundo da Fifa, disputou nove jogos, empurrou três bolas para as redes e serviu companheiros com dois passes. Desde a estreia, em setembro de 2019, levou 12 exibições para marcar pela primeira vez, na goleada por 4 x 0 sobre o Chile em 25 de março de 2022, no Maracanã.
Claro, a expectativa gerada também influencia o desempenho. Em meio à ausência de Neymar, Vinicius subiu de patamar e passou a ser tratado como principal referência técnica de uma Seleção sem identidade depois de passar pelas mãos de Fernando Diniz, Dorival Júnior e, agora, com Ancelotti. No Real Madrid, ele é cobrado, mas divide as responsabilidades com outros craques. A centralização dessa responsabilidade no Brasil aumenta as chances de erro e tomadas de decisão precipitadas.
Não é terra arrasada. O cenário diz mais sobre ajustes estruturais e coletivos do que problemas individuais de Vinicius. Ancelotti sabe que potencializar o último brasileiro eleito o melhor do mundo passa por tentar emular o que lhe é oferecido no Real Madrid. Retornos de Bruno Guimarães e, talvez, de Lucas Paquetá podem ajudar na conexão entre meio e ataque, necessária para aproximar Vini da realidade no clube.

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