
Nos cinemas, a partir do segundo semestre, há a promessa de um documentário que, em metáfora, celebra algo sustentado por um fiapo de perseverança: existe um cabedal de conhecimentos e vivências, numa corda bamba, e sob constante ameaça. Seja por um incêndio; por rituais indígenas que definham e pela desguarnecida preservação de culturas e memórias: muito está por um fio na tela. Assim é parte da narrativa de O vento vai reagir, longa de produção local, feito por Delvair Montagner (antiga funcionária da Funai e autora de inúmeros documentários) e Marcelo Díaz, e que acaba de ser finalizado, sob impulso de investimento do Fac (Fundo de Apoio à Cultura) da ordem de R$ 1,4 milhão. "Delvair foi a responsável pelo reconhecimento da terra indígena do Vale Javari. As etnias sabem da importância dela — não é, de modo algum, aquela máxima de 'branco salvador'", pontua Díaz.
A fim de dialogar não apenas com público de festivais de cinema, escolado, "que gosta de cinema de arte e de documentário de autor", mas ainda com público amplo, Marcelo Díaz conta da real imersão em "experiência existencial", no meio da floresta amazônica, cercada pelo ilícito, junto ao dia a dia de madeireiros, garimpeiros, predadores de pesca ilegal e agentes do tráfico de drogas. Todos os riscos atravessaram a produção de O vento vai reagir. Uma epopeia precedeu as filmagens: saída de Brasília, a equipe seguia até Manaus, noutro avião rumava para Tabatinga, e, lá, de barco, alcançava Benjamim Constant com destino a Atalaia do Norte e, lá, numa viagem de mais chegava na aldeia registrada no filme recém-concluído.
O longa conta do contato entre uma não-indígena, antropóloga (formada na Universidade Federal da Amazônia), que reencontra uma conhecida indígena, marubo, e ainda da ponte de entendimento da própria identidade ao se aprofundar numa cultura desvinculada do mundo acadêmico, no qual ela era vista como indígena. A segunda personagem do filme Varï Mëma, hoje, coordenadora da Funai no Vale do Javari. "Ela está exatamente na cadeira em que o Bruno Pereira, assassinado pelo crime organizado, ocupava. Isso, na condição de mulher indígena", conta Díaz.
"O filme traz a conexão entre duas mulheres, uma, aos 82 anos (a realizadora premiada, recentemente, pela Associação Brasileira de Cine Vídeo), e outra de 45 anos. São gerações muito diferentes, com experiências muito diferentes, mas conectadas pela cultura e pela vontade de trabalhar na preservação dos marubos", explica o codiretor.
Um curioso encontro entre Varï e Delvair aconteceu ainda nos anos de 1970. Numa região de acesso restrito, ela foi convidada pelo casal Nazaré e César Marubo para integrar um ritual de boas-vindas para a criança recém-nascida; justamente, Varï. Quatro décadas se passam, e Delavair, por acaso, reencontra Varï, no chamado Museu dos Povos indígenas, à época, Museu do Índio (RJ). "Foi uma conexão estabelecida de maneira concreta. Quarenta anos depois, elas se reencontram, por acaso, e Varï se tornou doutora em antropologia. Nisso, as duas, juntas, arquitetam um retorno para a aldeia, que trouxe a primeira conexão delas, em fins dos anos 70", conta Marcelo Díaz.
Na "energia positiva" do reencontro, ambas querem revisitar o povo marubo, com rituais, cultura, e grafismo, registrados, por anos, nas lentes de Delvair. Na expectativa da beleza, e da descoberta dos marubos, a equipe de cinema se rendeu "aos ajustes da realidade", como se tocasse um jazz vivo. "Imperou o improviso e a renovação na forma de contar essa história. Trazemos o passado dos documentários da Delvair, e contraponto ao processo de transformação, encabeçado por indígenas", entrega o cineasta.
Com ação avizinhada à da área de investigações dos assassinatos de Bruno Pereira (indigenista) e de Dom Phillips (jornalista britânico), mortos em 2022, O vento vai reagir ainda avança em tópicos da preservação da memória e dos riscos ligados a perdas territoriais de etnias. Uma das cenas que promete emoção reside na visita ao Museu Nacional (tomado por incêndio, em 2018), por parte de Varï que, no local avançou nos estudos de mestrado e doutorado.

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