Mesmo no cenário de aquecimento global mais favorável, crianças ficarão ainda mais dias expostas ao calor perigoso, com riscos severos de desidratação e insolação. Hoje, o número de meninos e meninas nessa situação é três vezes maior do que o registrado no século 19
Crianças na zona rural de Zâmbia: passagem de tufão Chido, em março, afetou a disponibilidade de água - (crédito: UNFPA/Carly Learson/Divulgação )
Quinhentos e sessenta milhões de crianças de até 9 anos são afetadas, anualmente, por 30 dias adicionais de estresse térmico devido às mudanças climáticas associadas a ações humanas, como uso de combustíveis fósseis e desmatamento. Um estudo coordenado pela Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, alerta que, no mundo, nenhuma outra faixa etária aproxima-se desse nível de exposição: é quase o triplo comparado a adultos entre 60 e 69 anos (190 milhões). A constatação, publicada na revista Science Advances, coloca a infância em um patamar especialmente vulnerável a doenças relacionadas ao excesso de calor.
Segundo os pesquisadores, há expectativa de que a exposição aumente ainda mais, com a confirmação das tendências climáticas globais. Nos cenários projetados de aquecimento de 1,5 °C e 2°C até o fim do século — considerados de alta probabilidade caso sejam mantidas as políticas atuais —, o número de crianças afetadas por um mês adicional de calor perigoso deverá aumentar para 620 milhões (49%) e 650 milhões (59%), respectivamente. Esse é o primeiro estudo a calcular, por faixa etária, o número de pessoas prejudicadas pelo acirramento das alterações no clima.
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As estimativas foram feitas com a combinação de dados populacionais e modelos climáticos de última geração e destacam que os riscos à saúde decorrentes dos eventos extremos já são a realidade, atingindo as gerações e as regiões geográficas desigualmente. Segundo o estudo, as mudanças nos padrões de temperatura e umidade quase triplicaram o número de crianças expostas a pelo menos 150 dias (cinco meses) de estresse térmico, desde a revolução industrial do século 19.
A equipe também simulou o que pode acontecer quando o planeta atingir níveis mais elevados de aquecimento. Em um cenário de 1,5°C, estimado pelos autores para a década de 2030, cerca de 51 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 4% dessa faixa etária — poderão enfrentar pelo menos 150 dias anuais de estresse térmico adicional atribuível à mudança climática. Hoje, a estimativa é de 40 milhões, ou 3%.
Geografia
Em um planeta 2°C mais quente, cenário do qual o mundo se aproxima, segundo estudos científicos, a projeção sobe para 115 milhões de crianças (10% da faixa etária). Além das disparidades de idade, os autores encontraram diferenças geográficas significativas: nas regiões tropicais e em países em desenvolvimento, com populações mais jovens, a infância é mais afetada. O sul da Ásia, o sudeste asiático e a África Ocidental são as regiões com maior número de meninos e meninas expostos ao estresse térmico perigoso.
O calor excessivo perturba o funcionamento normal do corpo humano, agrava doenças preexistentes e pode levar a complicações graves, como insolação, desidratação e falência de órgãos. As ondas consideradas perigosas, definidas pelo Ministério da Saúde como “período prolongado de temperaturas extremamente altas que superam a média histórica de uma região, colocando a vida e a saúde em risco severo” estão mais frequentes e intensas, lembram os autores.
O estudo se concentra no calor úmido, que é mais perigoso do que o seco porque impede a capacidade do corpo de transpirar para se resfriar, expondo o organismo a níveis perigosos de estresse térmico. Crianças são altamente vulneráveis ao calor extremo porque seus corpos aquecem mais rapidamente do que os de adultos e elas transpiram com menos eficiência, além de serem dependentes de outras pessoas. Entre os riscos associados ao superaquecimento estão desidratação e insolação, impactos no aprendizado e no desenvolvimento cognitivo.
Exposição desproporcional
Rosa Pietroiusti, principal autora do estudo e pesquisadora de doutorado na Universidade Livre de Bruxelas, lembra que 2026 já registrou algumas das ondas de calor mais severas já observadas desde o início das medições. Algumas seriam impossíveis sem a influência das mudanças climáticas antropogênicas.
“As mudanças climáticas já estão causando sofrimento a centenas de milhões de crianças em todo o mundo devido ao calor perigoso, representando sérios riscos à sua saúde”, disse Pietroiusti. “Crianças em países em desenvolvimento enfrentam uma exposição desproporcional a extremos climáticos, tanto agora quanto no futuro, apesar de contribuírem minimamente para as emissões históricas de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, pobreza, moradias inadequadas, acesso limitado a refrigeração e sistemas de saúde sobrecarregados deixam muitas crianças com poucas maneiras de se protegerem do calor.”
Em uma apresentação do estudo à imprensa, moradores das regiões mais afetadas pelo calor extremo contaram como são afetados significativamente pelo clima. "Quando o calor se torna intenso, percebemos a diferença nas crianças. Algumas têm dificuldade para dormir, outras se esgotam mais rapidamente, e atividades simples — como brincar ao ar livre ou concentrar-se na escola — tornam-se difíceis”, relatou Nneena Ngwu Nwa Matha, mãe de dois filhos e moradora de Enugu, na Nigéria. “Meu filho estuda em uma escola voltada para o contato com a natureza. Na estação seca, quando circulamos por lá, o ambiente fica tão seco que a poeira levanta facilmente, o que facilita o adoecimento”, contou Sekar Ratnaningtyas, que vive com o filho em Depok, na Indonésia.
Anna Dominguez Bohn, pediatra
(foto: Arquivo pessoal )
Três perguntas para // Anna Dominguez Bohn, pediatra
Por que as crianças são mais vulneráveis ao calor intenso e à combinação de altas temperaturas e umidade do que os adultos?
Crianças têm organismos mais frágeis, menores, em desenvolvimento. São organismos que têm um metabolismo mais acelerado, o que faz também com que a absorção de calor seja diferente. Elas têm menor capacidade de sudorese, massa corporal maior e mais água no corpo, fazendo com que desidratem mais fácil. Além disso, até pelo próprio desenvolvimento infantil, crianças têm maior necessidade de ficar ao ar livre, o que é benéfico. Porém, com o calor extremo, muito tempo fora de casa pode prejudicá-las. Quanto menor a criança, mais ela depende do cuidado externo, do aporte de água, pois não consegue fazer esse manejo de aporte hídrico. Então, elas dependem de terceiros, e isso faz com que seja uma população de fato mais vulnerável.
Quais são os sinais de alerta de que uma criança está sofrendo com o calor — e em que momento os pais devem procurar atendimento médico?
Durante ondas de calor com temperaturas superiores a 35°C, é fundamental manter-se atento aos sinais de desidratação infantil. Alterações comportamentais, como irritabilidade excessiva, letargia ou sonolência atípica, além de dificuldades para dormir, podem ser indicadores precoces. Quanto aos sinais físicos, deve-se observar a redução do volume urinário: em lactentes, isso se manifesta pela diminuição na frequência das trocas de fraldas; em crianças maiores, a urina apresenta-se mais concentrada, com odor mais forte e menor frequência de idas ao banheiro. É importante ressaltar que bebês com menos de 3 meses são particularmente vulneráveis e podem apresentar episódios de febre decorrentes do excesso de calor. Dada a facilidade com que crianças pequenas se desidratam, redobrar a atenção e garantir a hidratação adequada durante eventos de temperaturas elevadas é imprescindível.
Que medidas práticas as escolas deveriam adotar para proteger as crianças durante ondas de calor?
É fundamental que discutamos a implementação de políticas públicas voltadas ao ambiente escolar, abrangendo tanto a rede privada quanto a pública, com o intuito de mitigar os riscos associados às ondas de calor intenso. Medidas como a manutenção de ambientes ventilados — por meio de janelas e portas abertas para favorecer a circulação de ar —, o uso estratégico de ventiladores e, quando disponível, do ar-condicionado, tornam-se indispensáveis. Além disso, é essencial garantir a disponibilidade constante de água potável, preferencialmente resfriada, auxiliando na regulação térmica do corpo e na hidratação dos estudantes. A organização da grade escolar também deve priorizar atividades em locais sombreados ou em áreas arborizadas. Ressalta-se que a presença de vegetação em ambientes escolares é estratégica, uma vez que estudos apontam uma redução significativa na temperatura local e na sensação térmica quando comparadas às áreas de concreto, onde a diferença pode chegar a vários graus. Nesse sentido, políticas públicas que incentivem o plantio de árvores e a criação de jardins nas escolas são essenciais para proporcionar espaços de aprendizado e recreação sob as copas das árvores. Complementarmente, a realização de atividades lúdicas com água pode ser adotada como uma medida eficaz de resfriamento. Tais estratégias são fundamentais para adaptar o sistema de ensino a este cenário de temperaturas elevadas, protegendo a saúde e o bem-estar das crianças contra a desidratação.
* Anna Dominguez Bohn é pediatra formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Terapia Intensiva Pediátrica, Síndrome de Down, Neurociência e Desenvolvimento Infantil. Atualmente integra o corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, além de atuar nos hospitais Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Formada na Universidade de Brasília, é especializada na cobertura de ciência e saúde há mais de uma década. Entre as premiações recebidas, estão primeiro lugar no Grande Prêmio Ayrton Senna e menção honrosa no Prêmio Esso.