
A família de Valentina Nobre Lima, de 11 anos, que morreu na noite desse domingo (5/7) após passar 23 dias internada na UTI, denunciou uma série de falhas, omissões e atrasos no socorro à criança logo após ela ter sido picada por um escorpião no Riacho Fundo I, em 12 de junho. Os relatos de negligência foram detalhados ao Correio pelo cunhado da vítima, Thiago Saúde.
Segundo as denúncias, no momento do acidente, tanto o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) quanto o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) foram acionados, mas as duas corporações alegaram não possuir ambulâncias disponíveis para fazer o transporte da menina ao hospital.
Diante da negativa de transporte, os próprios familiares decidiram levar a estudante por meios próprios até o 6º Grupamento de Bombeiro Militar (6º GBM), situado no Núcleo Bandeirante, na expectativa de receber suporte médico imediato. No entanto, o atendimento também foi recusado na unidade.
De acordo com o familiar, os bombeiros de plantão informaram que todas as viaturas do grupamento estavam empenhadas em outras ocorrências graves e que a corporação não tinha como prestar assistência. "Sequer ajudaram a tirá-la do carro", desabafou Thiago Saúde.
Sem amparo, o pai de Valentina dirigiu até o Hospital Regional do Guará (HRGU), onde a criança foi admitida e recebeu o soro antiescorpiônico. No local, uma médica do plantão alertou a família de que a gravidade do caso exigia uma transferência imediata para um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), estrutura inexistente naquela unidade da rede pública.
Atraso na transferência
A denúncia aponta que o calvário da família se estendeu quando uma viatura de transporte chegou para encaminhar Valentina ao Hospital Santa Lúcia, na Asa Norte, instituição privada onde a vaga de UTI havia sido viabilizada. Por volta das 17h do dia 12 de junho, um médico plantonista do Hospital do Guará impediu a saída da paciente, retendo a transferência sob a justificativa de mantê-la no local.
A liberação para a UTI particular só ocorreu por volta das 21h, gerando um atraso de quatro horas no tratamento intensivo adequado. De acordo com os parentes, a falta de assistência inicial e a demora para a transferência hospitalar foram determinantes para a piora do estado de saúde de Valentina, que sofreu três paradas cardíacas consecutivas poucas horas após dar entrada na UTI da Asa Norte.
À reportagem, a SES-DF informou que a menina recebeu atendimento imediato no Hospital Regional do Guará (HRGu) e foi acompanhada continuamente pela equipe. A pasta pontuou que a paciente foi inserida no sistema de regulação para transferência a uma unidade com leito especializado, mas que a disponibilização de vagas de UTI segue critérios técnicos de regulação, que consideram a gravidade e a prioridade clínica de cada paciente.
O Correio também tentou contato com o Corpo de Bombeiros. Em nota, o CBMDF lamentou a morte da criança e manifestou solidariedade aos familiares e amigos dela. Acerca da falta de suporte no atendimento, a corporação explicou que "todas as viaturas operacionais da unidade encontravam-se empenhadas em outras ocorrências de urgência e emergência, o que impossibilitava o envio imediato de um recurso de socorro para o transporte da paciente".
Conforme a instituição, a disponibilidade de viaturas de emergência está diretamente relacionada à demanda operacional existente em cada momento: "Eventualmente, pode ocorrer de todos os recursos de uma determinada unidade estarem simultaneamente empregados em outras ocorrências, sem que isso interrompa a busca por alternativas para prestar o atendimento à população".
Segue nota da SES-DF na íntegra:
No Hospital Regional do Guará (HRGu), a paciente recebeu atendimento imediato onde foram adotadas as medidas assistenciais indicadas para estabilização do quadro clínico. Durante todo o período em que permaneceu na unidade, a paciente foi acompanhada continuamente pela equipe, conforme os protocolos assistenciais e de regulação vigentes.
A paciente foi inserida no sistema de regulação para transferência a uma unidade com leito especializado. A disponibilização de vagas de UTI segue critérios técnicos de regulação, que consideram a gravidade e a prioridade clínica de cada paciente. Enquanto aguardava a transferência, a paciente permaneceu sob acompanhamento contínuo da equipe assistencial.
Na rede pública do Distrito Federal, o soro antiescorpiônico está disponível no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), Hospital Regional do Guará (HRGu), Hospital Regional de Brazlândia (HRBz), Hospital da Região Leste (Paranoá), Hospital Regional de Ceilândia (HRC), Hospital Regional do Gama (HRG), Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), Hospital Regional de Planaltina (HRPl), Hospital Regional de Sobradinho (HRS) e Hospital Regional de Taguatinga (HRT).
Todos os hospitais da rede estão abastecidos com soro antiescorpiônico. As unidades de referência mantêm estoque de segurança do insumo e, à medida que as doses são utilizadas, solicitam a reposição à Rede de Frio, responsável pelo reabastecimento dos estoques.
Segue nota do CBMDF:
O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) lamenta profundamente o falecimento da criança vítima de acidente escorpiônico e manifesta sua solidariedade aos familiares e amigos neste momento de imensa dor. Em relação ao atendimento prestado no dia 12 de junho, o CBMDF esclarece que duas senhoras e a criança compareceram ao 6º Grupamento de Bombeiro Militar, no Núcleo Bandeirante, em busca de auxílio.
Naquele momento, todas as viaturas operacionais da unidade encontravam-se empenhadas em outras ocorrências de urgência e emergência, o que impossibilitava o envio imediato de um recurso de socorro para o transporte da paciente.
Desde a chegada da família ao quartel, os militares buscaram alternativas para viabilizar o encaminhamento da criança ao atendimento adequado. Foi realizado acolhimento inicial e contato com o médico regulador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), a fim de identificar a unidade hospitalar de referência para o atendimento ao acidente escorpiônico e orientar o encaminhamento da paciente.
Posteriormente, com a chegada do pai da criança em uma viatura da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), os familiares foram informados sobre a possibilidade de aguardar a disponibilização de uma viatura de socorro do CBMDF ou realizar o deslocamento imediato para a unidade hospitalar utilizando a viatura da PMDF. Diante das circunstâncias, o pai optou pelo deslocamento imediato.
O procedimento adotado pelos militares teve como objetivo assegurar o encaminhamento da criança ao atendimento especializado o mais rapidamente possível, considerando as condições operacionais existentes naquele momento e a necessidade de direcionamento à unidade hospitalar de referência.
A disponibilidade de viaturas de emergência é dinâmica e está diretamente relacionada à demanda operacional existente em cada momento. Eventualmente, pode ocorrer de todos os recursos de uma determinada unidade estarem simultaneamente empregados em outras ocorrências, sem que isso interrompa a busca por alternativas para prestar o atendimento à população.
Em casos de acidentes com escorpiões ou outros animais peçonhentos, a orientação é manter a vítima em repouso relativo, evitar procedimentos caseiros, como torniquetes, cortes ou sucção do local da picada, e buscar atendimento médico imediatamente. Em caso de dúvidas sobre a unidade hospitalar de referência ou necessidade de orientação, a população pode acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
O CBMDF reafirma seu compromisso com a prestação de um atendimento técnico, responsável e humanizado à população do Distrito Federal, permanecendo à disposição das autoridades competentes para os esclarecimentos que se fizerem necessários.
Homenagens
A partida de Valentina gerou uma onda de consternação e homenagens nas redes sociais por parte de familiares e da comunidade escolar. A irmã da vítima, Izabela Nobre, desabafou sobre a perda precoce da menina. "Que dor. Hoje nos despedimos da nossa querida Valentina. Embora a dor da saudade seja imensa, seguimos confiando que Deus realizou Sua boa e perfeita obra", afirmou, reforçando a gratidão pelas lembranças e pelo amor compartilhado pela irmã.
A Escola Classe 03 do Núcleo Bandeirante, instituição onde Valentina cursava o 5º ano, também publicou uma nota de pesar oficial em seus perfis digitais. No texto, a comunidade escolar manifestou profunda tristeza e destacou o legado deixado pela aluna: "Valentina permanecerá em nossa memória por seu sorriso doce, sua alegria e pela luz que trouxe aos colegas, professores e a todos que tiveram o privilégio de conviver com ela".
Ainda não há informações sobre o velório da estudante.

Cidades DF
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